Divindade e desejo

Por Leonidas Razera Neto, Sebastian Folatelli e Tassiane Stelzer

Gi, prostituta do Brás, se converteu. Virou crente. Entrou pra Igreja Universal, não precisa mais vender o corpo pra sustentar os sete filhos, acidentes de trabalho acontecem, no caso dela, quatro meninos e três meninas. Agora é pastora, e congrega uma pequena legião de fiéis numa igrejinha na periferia de São Paulo. Nunca mais acordou com um homem em sua cama.
Num belo dia de domingo, quando aconteciam as missas, ela pregava. Falava tanto, com olhos fixos aos fiéis que chegavam e se acomodavam na igreja. Quando de repente seus olhos verdes avistaram um homem. Um homem alto, ruivo, de paletó branco e sapatos marrons. Tentou voar bem alto, não conseguiu. Seu pensamento e sua vida era só de Deus.
O passado de uma pessoa pode revelar ações futuras, sendo que cada ação inevitavelmente gera uma reação. Naquele olhar, ela lembrou o seu passado, sua primeira paixão, seu eterno sofrimento no qual só seu espírito podia se refugiar. Se o coração não mente na frente dos olhos de deus, seus olhos mentiram perante a inesperada vontade de conhecer aquele homem, uma visão, uma inesperada peça. Ela cedeu à imposição do corpo. Nunca tinham estado tão longe.
Pensou naquilo tudo que estava sentindo, seu corpo em chamas, estava excitada, nunca imaginou que um dia sentiria falta de sexo, aquele homem realmente mexera com ela, fez a sentir viva novamente, sentiu o sangue correr em suas veias e descer pelas suas pernas e um tremor subiu por toda sua espinha, arrepiou-se e, puniu-se. Puniu-se por ter pensamentos tão impuros, achar que sexo era simples complicava sua vida.
Então, ao final da missa quando todos os fiéis vinham para cumprimentá-la, veio ele, segurando na mão de uma criança, que provavelmente, era seu filho. Ela sorriu, pois imaginou que finalmente encontrara um homem com bons princípios. Foi então que ele a surpreendeu. Olhou nos seus olhos, virou o rosto o olhou para ver se havia alguém ainda na igreja, mandou seu filho brincar fora dali e disse: Minha solidão combina com a sua, vamos dançar? No princípio ela se assustara, pensou: mas dançar, o que? Sorriu novamente, o abraçou e ficaram ali, dançando, ao som dos sinos que tocavam sem parar.
Enquanto ela se questionava se estava agindo certo ou errado naquela situação aquela dança, aqueles movimentos que desenhavam toda a sala da igreja ficavam sempre mais intensos. A dança gradualmente mais devagar. Os olhos mais próximos enquanto as boca no pescoço dela, faminto de tesão, a mão na coxa lhe puxa, rude. Não havia como dizer não.

~ por sandrogalarca em maio 25, 2010.

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