A noiva da cidade

Por Cylene Pereira de Souza, João Paulo da Silva e Andrea Lis da Silva

Flashback: conhecera Joana no segundo ano do colégio. Feia? Não, ela não era nada. Nem isso. Era uma dessas meninas que nunca depilam as axilas ou cortam as unhas dos pés e sempre ficam sozinhas na hora do recreio. Dona de uma burrice ímpar e de um par de olhos corriqueiros e castanhos. Namoramos por anos. Enfim casamento. Mas aquele bilhete, aquela denúncia anônima numa folha suada e suja de papel, não combinava com a imagem doce e bela de Joana. Ah, o amor é cego, surdo, mudo e até coxo de uma perna!
Gerônimo, espera ansiosamente sua noiva chegar enquanto encara a imagem do inocente pintinho da criança agarrada aos braços da Virgem. Atrás dele os bancos abarrotados de parentes ou seriam serpentes? Nada pior que gente boazinha: santos são tediosos… A ansiedade o consumia pela espera infinda, não pelo sim, mas pelo desejo de vingança que o carregou em via-crúcis do corredor da igreja até o altar, de onde encarava as tias gordas e velhas em seus vestidos ornamentos por brilho e paetês tão fora de moda quanto ponche na família ao som de Waldick Soriano num sábado à tarde.
Mãos trêmulas suando a bicas, coração dando coices violentos no peito, olhos apertados e fixos à porta da Igreja. Eis que surge – Joana! Aquilo só não era a visão do inferno, porque se tratava de um templo sagrado. De repente todas aquelas imagens tomavam forma em sua mente: as tias velhas, as crianças correndo para lá e para cá, os tios com aquelas camisas abertas a meio peito e peludos com seus medalhões de São Jorge, as moças fingindo-se recatadas atrás do confessionário… Tudo aquilo o remetia à sua infância. E como eram tristes os seus encontros de família em seus aniversários. E o que combinaria melhor com um aniversário do que aquele bolo enorme ornado em babados e exageradamente coberto de glacê branco e alguns enfeites coloridos que ele engolia mesmo sem saber o que eram. Joana era um bolo, e adentrava à igreja naquele momento embalada ao som da Marcha Nupcial… Ela era indiferente, mas o olhar dela não!… Fiona do Grajaú! Naquele instante… Vela! É isso! Não existe bolo de aniversário sem vela.
Nos castiçais, grossas velas amarelas ardiam indiferentes aos pecados alheios. Numa atitude rápida, Gerônimo, o noivo supostamente traído, agarrou uma das velas e certeiramente jogou-a no véu manchado pela incerteza da pobre Joana. Nesse instante a igreja se converteu em grande balbúrdia, convidados se atiravam pelos vitrais rasos e coloridos das laterais, o padre praguejava em latim –  Mors omni aetate communis est, enquanto tentava apagar o fogo da noiva com a velha estola. O cheiro de fumaça despertou Filipe, dormindo na sacristia, embriagado pelo vinho do ritual católico e o coroinha não teve tempo de jogar a água benta na noiva em chamas, embora tivesse tentado em vão com seu aspersório de prata. Demônio! Demônio! Gritava a tia gorda Josefina, enquanto tentava desentalar de uma das portas de saída. As pessoas não entendiam o porquê de tanto amor se transformando em cinzas. Ali estava quase de uma tonelada de amor transmutado em cinzas. Na igreja já vazia (o corpo de bombeiros e a policia não havia chegado ainda), o olhar perdido do noivo buscava nas imagens dos santos uma resposta, tendo como reposta apenas olhares de reprovação.
Não esperou pela polícia. No frescor daquela tarde de maio, resolveu seguir a pé pela estrada da vida. Até ser atropelado.

~ por sandrogalarca em maio 25, 2010.

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